Uma situação prestes a tornar-se tensa
Chorão pegou o telefone e ligou para a Marta. Foi realmente uma ligação telefônica, não havia smartphones ainda e o único jeito de resolver aquela situação seria falando com a pessoa que administrava o financeiro. Estávamos numa loja em um shopping em São Paulo. Alguém havia indicado para o Chorão aquele local como a melhor opção para comprar os equipamentos que precisávamos.
Chorão queria que eu editasse um clipe para a música Me Encontra. Duda Santos já não estava mais trabalhando com a gente, então eu assumi também as edições de vídeo. O computador desktop que usávamos parou de funcionar há algumas semanas e a oficina estava demorando demais para solucionar.
Botando em movimento sua característica energia de fazer acontecer sem ficar esperando, Chorão me chamou para ir com ele comprar um bom laptop para que eu pudesse continuar trabalhando e realizar aquela edição do clipe. Escolhemos o laptop adequado pra edição de imagens, Chorão aproveitou pra pegar uma dock station que ele queria pra ouvir música nos quartos de hotéis durante as viagens para os shows.
Na hora de pagar, Chorão foi usar um cartão, olhou para o funcionário, olhou para a minha cara. Eu cheguei a pensar que tivesse algo a ver com o alto valor daquela compra. Então ele disse um palavrão e depois alguma coisa engraçada, antes de falar que o que acontecia era que ele não lembrava a senha. Ele havia pego aquele novo cartão recentemente, se perguntasse para ele quais as manobras que Peter Smolik, Jake Brown ou John Cardiel faziam em qualquer video de skate, ele falaria todas na sequência certa. Mas agora, no balcão da loja, só restava ligar para a Marta.
Enquanto o telefone fazia aquele som contínuo/interrupto, até que chamada seja atendida, de uma forma que parecia ser muita mais demorada do que o normal, Chorão andava de uma lado para outro em frente ao balcão e dizia não estar acreditando que teria que voltar pra Santos sem o laptop, só porque não lembrava a senha do cartão. Em função da agenda de shows, ele não teria tão cedo outra oportunidade de tirar outro dia livre para ir comprar os equipamentos.
No instante seguinte, Marta atendeu, confirmou que aquele era o cartão com o saldo certo e passou a senha, resolvendo de forma simples e objetiva uma situação que estava prestes a tornar-se tensa.
Voltamos para Santos e em poucos dias, usando o laptop, consegui finalizar o clipe da música Me Encontra, aplicando as fusões de imagens que o Chorão gostava, com muitas cenas que vínhamos gravando nos shows e na estrada, além de imagens do Chorão andando de skate em Nova Iorque, no Brooklyn Banks, gravadas pela Grazi.
Logo depois que mudei de Santos para Itu, no interior de São Paulo, Chorão ficou sabendo que eu havia me casado. Na primeira oportunidade que nos encontramos no aeroporto para viajar pra um novo show, ele me chamou pra tirar satisfação daquele situação: Como eu havia me casado em Itu e não havia convidado ninguém da banda? E logo depois, entre algumas risadas, apertando minha mão e batendo seu ombro no meu com um cumprimento habitual, me deu parabéns e disse para eu ficar com aquele laptop como presente de casamento, porque sabia que eu ia usar e aproveitar muito bem.
Ao longo dos anos, praticamente todo material feito ou editado com vídeos, fotos e textos para o Charlie Brown Jr, compartilhando toda a energia positiva que Chorão movimentava nos palcos e estúdio, foi finalizado com este laptop, incluindo este texto que, como mais uma forma de lembrar e agradecer, acabo de escrever agora.
[Jerri Rossato Lima]



Confesso que essa história me tirou um sorriso e encheu meus olhos de lágrimas.
Lembro de certa vez sentado atrás do balcão duma loja de telefonia, entra um casal em busca de um plano de dados. Na época era modem com um chip conectado direto nos aparelhos via USB. “Senhor, confesso que nosso plano é bem básico. Pra subir fotos pra FaceBook é até tranquilo.” - a reposta que obtive foi: “Então talvez funcione, eu basicamente vou subir fotos pra um site.”
Na época eu trabalhava nessa loja e fazia faculdade de fotografia, minha curiosidade atiçou e eu perguntei o que o cliente fazia da vida: “Eu sou fotógrafo de banda.” - eu prontamente respondi: “Que legal! Eu curso fotografia na faculdade, quero seguir nesse caminho também. Fui a um show do Charlie Brown Jr. final de semana passado, foi animal! Gravação de DVD e tudo mais.”
Pra minha total surpresa eu recebo a seguinte resposta: “Que bom que gostou do show. Eu estava em cima do palco, eu sou o Jerri… fotógrafo dos caras.” - lembro d’eu ficar meio em choque.
Pós plano fechado, trocamos uma ideia e me mostrou algumas fotos da gravação do DVD que só foi sair anos depois.
O sorriso no rosto e a lágrima no olho é por saber que de alguma forma, nem que seja numa partícula bem pequena desse vasto universo, eu participei de espalhar o vírus CBJr. por aí.
❤️❤️❤️