Um reencontro com Chorão
Para cada pessoa que conheceu Chorão, existe a possibilidade de uma outra nova história vir a ser contada sobre “O Chorão”. Por meio de inúmeros pontos de convergência e divergência, a vida do Chorão, depois da sua morte, tornou-se um universo a ser explorado. Mesmo quem não conheceu Chorão sente-se atraído pelo impulso de contar, ou pela curiosidade de conhecer, alguma coisa sobre ele. Falar sobre o Chorão, mesmo que não se perceba, tornou-se muito mais falar e expor sobre si mesmo do que dizer algo sobre quem realmente foi o Chorão.
Quando Chorão falava sobre sua trajetória, com a autoridade natural de quem responde pela sua própria vida, muitas vezes pude perceber que era também uma versão da realidade o que ele criava e recriava. Assim como a personalidade do Chorão se expressava através de dualidades extremas, dizer que conhece alguma coisa sobre ele é também dizer que ignora muita coisa sobre ele. Cada pessoa que conta uma história sobre o Chorão tem algum interesse particular, que às vezes tenta passar despercebido em meio a narrativa, mas em algum momento poderá ser revelado. Eu também sou uma destas pessoas.
Ouvimos com frequência comentários sobre como a vida de alguma personalidade poderia ou deveria se tornar um filme. Neste sentido, a vida do Chorão daria muitos, diversos, contraditórios, empolgantes, melodiosos, barulhentos, divertidos, inspiradores, trágicos e surpreendentes filmes. Um destes filmes foi exibido ontem no cinema, durante um festival internacional, em São Paulo.
Tratando-se de alguma coisa relacionada ao cantor Chorão e a sua banda Charlie Brown Jr, só o fato do filme ter sido concluído e chegar à tela do cinema já é uma grande conquista. A dificuldade em iniciar, desenvolver e concluir um projeto com o Charlie Brown Jr sempre esteve presente, mas nada conseguia barrar a vontade e a potência do Chorão, de uma forma que mais cedo ou mais tarde as coisas acabavam se realizando. Com a sua ausência, anunciada mas totalmente inesperada, o que antes era dificuldade tornou-se uma barreira quase instransponível, transformando a vasta manifestação musical da banda que impactou a vida de gerações de brasileiros numa herança que tristemente caiu nas mãos da inabilidade, do despreparo e do equívoco.
Desvinculado desta herança e dos herdeiros, o diretor do filme exibido agora, Felipe Novaes, não conheceu Chorão pessoalmente, mas logo depois da morte do cantor, há cerca de seis anos, teve a ideia de fazer um documentário sobre sua história. Ele precisava de imagens para o filme, inicialmente financiado por um crowdfunding. Sua equipe entrou em contato comigo, em 2013, para ceder o material em vídeo que eu vinha gravando com o Chorão e a banda Charlie Brown Jr ao longo dos últimos sete anos. Minha resposta foi negativa. No momento, não estava em condições de decidir sobre aquilo.
Naquela época, o impacto com a ausência do Chorão me tirou de circulação. Depois de ver muitas pessoas, que não tinham convívio direto com ele, dando opiniões infundadas na mídia, e depois de ver pessoas que viviam muito próximas a ele usando esta posição para ganhar voz e projeção de forma vergonhosa, precisei de me afastar completamente daquele espetáculo de absurdos.
Além disso, me pareceu apenas oportunismo esta idéia de um documentário que surgia para falar de alguém que havia morrido há poucos meses. Eu trabalhei com o Chorão durante todos aqueles anos exatamente para documentar e contar uma história viva, que era feita a cada dia, a cada noite, a cada ensaio, a cada música, a cada viagem, a cada show.
Naquele momento, eu não sabia nem ao menos o que poderia acontecer com as histórias que vínhamos construindo, junto com o videomaker Duda Santos: Um documentário sobre a relação do Chorão com o universo do skate e outro documentário sobre o Charlie Brown Jr, incluindo depoimentos gravados com todos os integrantes que estavam totalmente ativos, levando a música da banda ao encontro do público em todo o país.
Na verdade, a diferença é que estes dois documentários que permanecem inéditos não eram “sobre” o Chorão ou “sobre” o Charlie Brown Jr mas sim “Com o Chorão” e “Com o Charlie Brown Jr”, porque é a história deles, contada por eles mesmos, com depoimentos adicionais de muitas pessoas relevantes no meio musical e no skate nacional e internacional. Eu precisava assimilar melhor tudo o que estava acontecendo, antes de dar qualquer passo ou liberar imagens.
E depois, os anos passaram. Muitas coisas aconteceram e outras desaconteceram, entre elas o que deveria ser, mas não foi, o autêntico livro de fotos do Charlie Brown Jr (e isso já é uma outra história, contada com detalhes no livro A Confiança É Um Abraço Invisível).
Agora, em outubro de 2019, chega a surpresa de ser convidado para assistir a esta exibição do documentário realizado pelo Felipe Novaes. O motivo para a minha presença era o fato de grande parte do filme teria sido editada usando as imagens que eu gravei. Fiquei sabendo que as gravações que eu devolvi para os herdeiros dos direitos autorais sobre a obra do Charlie Brown Jr, cerca de 700 fitas de Mini DV, haviam sido entregues para o diretor e foram usadas para ajudar a ilustrar e construir a narrativa que se tornou o filme “Chorão – Marginal Alado”. O documentário não apenas havia sido finalizado, mas também fora selecionado para exibição na Mostra Internacional de Cinema, em sua 43 edição.
No cinema, acompanhado por quem desde sempre presencia os efeitos impactantes das diversas situações que vivencio com o Charlie Brown Jr, fiquei apreensivo sobre como teria sido contada aquela história que estava prestes a iniciar na tela.
Logo nas primeiras cenas, houve um reencontro com Chorão, por meio das imagens que gravei, mas não via há muitos anos. A sensação inicial que tive, esta intensa sensação que permaneceria em mim, mesmo depois do final do filme, era que o Chorão estava vivo. Não fazia sentido pensar que ele não poderia estar vivo, ou que eu não pudesse andar de skate com ele depois que acabasse a sessão no cinema, isso era uma estupidez.
A narrativa foi avançando e revelando suas articulações, nas entrevistas gravadas por Felipe Novaes e sua equipe, além de muitas cenas garimpadas em programas de TV e de algumas imagens registradas por Duda Santos em turnês da banda, fora do Brasil. A aparição opaca de dois hipócritas nem mesmo conseguiu abalar minha atenção, mas não passou despercebida.
Músicos, amigos, familiares, pessoas relacionadas, a própria banda e personalidades da mídia ganharam voz através dos depoimentos que buscaram definir diferentes aspectos e percepções sobre quem foi o Chorão. De alguma forma, todos foram afetados pela vida e pela morte do Chorão.
Apesar da presença pontual, ainda não foi desta vez que os outros integrantes do Charlie Brown Jr ganharam seu devido espaço e reconhecimento como verdadeiros protagonistas na história do rock Brasileiro, já que o foco se manteve na trajetória do vocalista. A abordagem centralizada na ascenção e declínio de Chorão, usando a trajetória do Charlie Brown Jr como cenário para expor a autenticidade dos seus talentos e a dor dos seus vícios, me fez lembrar claramente da minha escolha por um afastamento, nos últimos meses, por não conseguir mais aceitar ser pago para registrar a degradação vertiginosa de quem sempre me tratou com respeito e valorização ao me chamar para viver e registrar tudo ao seu lado.
Invisível, numa multiplicidade de locais, estúdios, palcos, ônibus, aviões e situações que registravam e mostravam Chorão em suas ações e nas expressões do seu rosto, desta vez voltei a me sentir presente naquela história que aconteceu através dos meus olhos e que agora voltava a fazer parte da realidade por meio das sequências de imagens exibidas na imersão de sentidos no escuro de um cinema. Aos poucos, fui reconhecendo minhas antigas escolhas e procedimentos na hora de gravar ou não gravar cada acontecimento, da mesma forma como foram ficando evidentes as escolhas do diretor por incluir ou deixar de fora certas imagens, pessoas e acontecimentos registrados.
Foi preciso realmente chegar alguém com uma perspectiva externa e sem vínculo emocional, num intervalo de seis anos que mostrou não ter nada a ver com oportunismo, com o suporte da produção e de todo o trabalho de uma equipe de cinema, tratando o Chorão como um personagem e não como um amigo, para conseguir olhar, evidenciar e dar contexto e direção para aquela profusão de imagens e histórias registradas num fluxo caótico de total comprometimento ao propósito de estar presente e documentar. Se havia qualquer dúvida pessoal sobre como a história seria contada, em pouco tempo de projeção Felipe Novaes conquista seus méritos e estabelece a relevância de um filme que precisa ser visto e discutido.
Enquanto cada coisa encontra seu próprio tempo e seu espaço, estas foram as primeiras reflexões que me ocorreram, acreditando que o momento agora é de aproveitar as sensações e aprendizados que o documentário tem para oferecer. Ainda assim, apesar de vivenciar os acontecimentos com mais aceitação e menos apego, não deixa de ser uma estupidez o fato de que aquelas sessões de skate com Chorão nunca mais acontecerão.
[ Jerri Rossato Lima - 2019]




Pô Jerri, muito massa ver essas histórias tomando forma! Bom demais acompanhar isso tudo. 🤘🏼🤘🏼🤘🏼
🤯❤️