Memento Mori
Lembre-se que você também vai morrer. Este é o significado de MEMENTO MORI, uma expressão em latim criada há mais de 2 mil anos. Algumas culturas costumam usar a expressão Memento Mori como uma forma de pensar em aspectos da nossa inescapável condição de mortalidade, para valorizar e aproveitar melhor a vida que cada pessoa tem disponível.
Quando eu voltei a mexer com as fotos e arquivos do longo trabalho de registro documental que fiz com o Chorão, durante muito tempo algumas fotos tornaram-se um Memento Mori. Olhar aquelas fotos me fazia pensar em como nossa experiência é frágil e em como subitamente podemos desaparecer desta bela e louca linha de tempo.
Shows de rock, e de música em geral na sua enorme diversidade, costumam ser uma celebração da vida. Por isso, talvez não haja um título mais surpreendente e apropriado para o novo álbum e a nova turnê da banda Depeche Mode do que este: MEMENTO MORI.
Ao nos fazer lembrar que todos vamos morrer, diante da intensa troca de energia de um espetáculo musical com enorme impacto visual, a banda homenageia e se despede de um integrante que faleceu em 2022, renova seu vínculo presencial com os fãs, e também presta sua reverência ao momento presente, que é o único instante em que a alegria de viver pode acontecer e ser compartilhada. Acima de tudo, a banda escolhe e nos faz lembrar de escolher viver.
Nunca estivemos tão distraídos para a vida como nestas últimas duas décadas, quando o excesso de informação e a velocidade das mudanças rouba a atenção, esvazia o sentido e nos entrega à ansiedade. Olhar com calma e aceitação para a possiblidade do fim, como um contraste que reforça o que mais importa na vida, é uma forma de desapego que as culturas orientais ensinam há séculos, mostrando como valorizar a vida ao trazer a atenção e a presença para o único momento em que cada respiração acontece: o agora.
Olhar para uma foto ou para um show como um Memento Mori pode significar também buscar entender e talvez aceitar tudo o que acaba. Aprender a soltar apegos, frustrações, orgulhos, arrependimentos, posses, expectativas, julgamentos, desejos. Respirar, soltar e deixar ir embora. E escolher viver. [Jerri Rossato Lima]



