Apenas mais uma chance
O carro entrou cortando para o lado, como se o posto de gasolina fosse apenas mais uma faixa da pista, tão acelerado que a vida após a morte rapidamente fez mais sentido do que qualquer conceito sobre a eficiência dos freios. E no mesmo instante, cuspindo nas leis da física, estávamos em frente da loja de conveniência, parados.
As portas se abriram e os caras saltaram como quem ganha apenas mais uma chance. O Guitarrista que estava no banco da frente foi o primeiro a sair. E logo depois o outro Guitarrista pulou do banco de trás, onde continuei sentado, ao lado do Baterista. O Cantor soltou as mãos do volante, baixou o volume do som, mantendo o carro ligado e os vidros fechados, sem falar nada, ansioso.
Não há como saber que música estava tocando em alto volume há alguns instantes atrás, quando o Cantor percorreu o trajeto do seu apartamento, perto da orla, até aquele posto na saída da Cidade Praia, redefinindo equações de espaço-tempo com a pressão entre quilômetros de pânico contra minutos de 15 segundos. Questões como readequação espacial e pertencimento também foram abordadas neste deslocamento, ainda que superficialmente, passando entre um ônibus e uma moto, logo depois de um cruzamento intransigente. Nunca vou lembrar daquela música, mas a sonoridade abstrata do motor e dos pneus continuaria expandindo conceitos de harmonia na minha cabeça.
Os guitarristas entraram no posto de conveniência, enquanto eu procurava o cinto de segurança no banco de trás do carro. O Baterista, que também tentava achar o cinto dele, disse alguma coisa otimista, no sentido de que chegaríamos em tempo ao local do show da banda gringa na Cidade Aeroporto. Sim, chegaríamos a tempo, foi o que
fiquei pensando sem dizer nada. Naquela hora da noite não haveria trânsito na subida da serra e tudo bem, encontrei o cinto, e chegaríamos sim, eram só mais uns quilômetros, quase uma linha reta e como era impressionante a estabilidade deste carro blindado, era o que eu dizia para mim mesmo. Consegui me prender no banco, pensando na facilidade como as pessoas podem subitamente virar notícias num domingo à noite, quando encostou ao lado o outro carro.
Era o Baixista e um motorista, os caras por quem o Cantor esperava. O motorista conversou com o Cantor na janela do carro. O Guitarrista saiu, acendeu um cigarro, e foi direto para outro carro, junto com o Baixista. O outro Guitarrista trouxe cerveja, passou para o Baterista, e sentou-se ao lado do Cantor. As portas se fecharam. O Cantor botou uma mão no volante, pisou na ironia com elegância, um pouco mais tenso, acelerando num tremor dos ombros e da cabeça. Logo já não havia mais som. A mais perigosa sinfonia recomeçou.
[Trecho do livro A Confiaça é Um Abraço Invisível - 2018 - Jerri Rossato Lima]



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